Friday, April 27, 2007

Es muss sein?

« Tomas começara a gostar de Beethoven por causa de Tereza, mas não era um fanático da música e duvido mesmo que conhecesse a história que está na origem do ilustre tema beethoveniano do " muss es sein? es muss sein ! "

A coisa passou-se assim: um certo senhor Dembscher devia cinquenta florins a Beethoven, e o compositor, sempre falido, foi pedir-lhos. " Es muss sein?,tem de ser?", suspirou o pobre Dembscher, ao que Beethoven replicou num tom jocoso: "Es muss sein!, tem de ser !", imediatamente anotou as palavras no seu caderninho e compôs a partir desse tema realista uma pequena peça a quatro vozes: três cantam "es muss sein,ja,ja,ja, tem de ser, tem, tem, tem," e a quarta acrescenta : "heraus mit dem Beutel! puxa da bolsa !"

Esse mesmo tema tornar-se-ia mais tarde o núcleo central do quarto andamento do último quarteto opus 135. As palavras " es muss sein ! " adquiriam para ele uma tonalidade cada vez mais solena, como se tivessem sido proferidas pelo Destino.

...

O alemão é uma língua de palavras pesadas. "Es muss sein!" deixara de ser uma brincadeira para tornar-se " der schwer gefasste Entschluss"; " tem de ser" tornara-se a decisão gravemente pesada.

Beethoven transformara, portanto, uma inspiração cómica num quarteto sério, uma brincadeira numa verdade metafísica. É um exemplo interessante de passagem do leve ao pesado ( portanto, segundo Parménides, de transformação do positivo em negativo ). E, coisa curiosa, essa mutação não nos surpreende. Pelo contrário, ficariamos era indignados se Beethoven tivesse passado da seriedade do seu quarteto para a leveza do cânone a três vozes sobre a bolsa de Dembscher. E, no entanto, teria agido em perfeita consonância com o espírito de Parménides : teria mudado do pesado para o leve, ou seja, do negativo para o positivo ! No começo, teria havido ( sob forma de um esboço imperfeito) uma grande verdade metafísica e, no fim ( como obra acabada) a mais leve das brincadeiras.

Só que já não sabemos pensar como Parménides. »

Kundera, Milan, A Insustentável Leveza do Ser, Dom Quixote, pág 224

1 comment:

Anonymous said...

é muito agradável relembrar essa leitura de Kundera