Friday, November 7, 2008

Maria

Maria veio ver-me, como faz sempre que vem à sua terra natal. Com ela vem sempre dois dedos de conversa com alguém cujos horizontes não acabam nos limites da fronteira.
Queda-se de espanto. O mesmo de sempre, como se fora a primeira vez. A decepção vem a seguir.
Maria educou os filhos sózinha na Alemanha.A pulso de ferro, com disciplina.Diz até que a certa altura sentiu medo de os perder. Saía de casa de madrugada e deixava o despertador, as peças de roupa para ambos vestirem, ordenadas, o pequeno almoço feito e acomodado no termo, quentinho...
Nunca os filhos faltaram a uma aula, nunca trouxeram uma carta de professores fazendo queixas. Ambos concluíram com sucesso os seus cursos universitários
Hoje Maria não entende o seu país. Custa-lhe sobretudo a imoralidade, a falta de valores, a hipócrisia, a mentalidade mesquinha e invejosa.
Maria não fica muito tempo. Vem visitar os pais e regressa a Colónia onde os filhos, ambos pessoas profissionalmente conceituadas na região, vivem. Maria não esconde a mágoa que leva na bagagem sempre que parte. E entende cada vez mais a inibição que sentem os filhos de dizer que são portugueses.
Maria recusa-se a aceitar que no seu país um emprego se consiga não por mérito próprio, mas sim porque se tem um belo par de pernas, ou se é sobrinho do tio da irmã ... Que os pais não ensinem aos filhos, que a base de toda a sociedade é a familia e que esta é o pilar que deve suportar tudo o resto.Que a educação começa em casa e que os mais velhos devem ser respeitados, sejam eles, vizinhos, professores, educadores, avós , conhecidos ou desconhecidos. Que a educação tem que obrigatoriamente valorizar os afectos. E que a ambição só é válida quando não atropeladar a liberdade e o respeito pelo próximo.
Maria sente-se magoada porque a sociedade onde viveu alguns anos, despreza e vota à indiferença, todos aqueles que conseguem à custa do seu suor, viver honestamente. A mesma sociedade que quase enaltece a heróis nacionais os desviadores de dinheiros públicos, vulgarmente designados de ladrões, mas que agora tem nomes pomposos como administradores, gestores e por aí ...
Maria não entende porque é que os campos estão ao abandono e ninguém ensina aos filhos que é ali que estão as nossas raízes. Tal como não entende os pais que se endividam para dar carros de luxo ou brinquedos caríssimos aos filhos. Como se fosse esse o objectivo maior a alcançar pelo ser humano. A vaidade , a luxúria, a ostentação.
Maria fala com orgulho na sua avó, que ficou viúva tinha o mais novo dos seus filhos seis meses. Criou sózinha seis filhos sem nunca vender o corpo, diz com orgulho Maria. E hoje mulheres e homens vendem o corpo e a alma, para conseguir o melhor lugar dentro duma empresa. É esta imoralidade que transmitem aos seus próprios filhos: não olhar a meios para atingir os fins.
Fico sempre a pensar nas suas palavras quando me visita.E penso que este mundo seria efectivamente bem melhor se existissem mais
Marias

2 comments:

antónio paiva said...

...

crónica de vida.

um universo de que todos fazemos parte, sem dúvida.

ainda assim, lamentamos mais do que agimos, porque é mais fácil, sem dúvida.

(cada um aparece quando quer e pode, caso contrário isto tornava-se uma obrigação e, ficaria por certo reduzido a uma tremenda maçada)

:)

beijinho e tudo do melhor.

Tite said...

E também se a justiça se fizesse com ética.
Hoje tenho muita revolta de ver que os advogados e juízes se deixam comprar pelo vil metal deixando para trás tudo o que aprenderam.
Por isso as prisões estão cheias de pobres diabos e as empresas de grandes "administradores, gestores e outros ...ores (ai que dores!!!) que bem se podem chamar ...ladrões autorizados.
Hoje estou amarga e o teu post ainda agravou.
Abraços de solidariedade com a Maria