Tuesday, January 16, 2007

"Carla e António"

« Falem-me em 450 mil desempregados e direi que é uma estatística.

Mostrem-me as televisões gente aglomerada à porta de fábricas, a protestar, a queixar-se, a temer o futuro, e direi que é um sinal dos tempos.Mas mostrem-me uma mulher, de expressão sofrida, a tentar com as mãos secar as lágrimas que lhe caem dos olhos - e então o drama humano ganha um rosto e um nome e queima-me na alma, como um ácido.

Porque não se trata de algo um tanto abstracto, como um despedimento colectivo, mas de um caso concreto, a história de um casal, com casa para pagar e um filho para sustentar - e, sobre ele, o espectro do desemprego. Carla e António aceitaram dar a cara, ao JN, para servir de símbolo do lado negro da tão incensada globalização.

Eles já ouviram, decerto, presidentes disto e daquilo dizer que para ganhar a batalha da competitividade os portugueses devem ser mais instruídos, mais cultos, se possível, e altamente especializados, nem que se limitem a fazer um trabalho puramente mecânico horas a fio.

Eles já ouviram ministros disto e daquilo incitar os portugueses a serem mais produtivos, mais imaginativos, mais aplicados. Porque, se fizermos, presidentes e ministros dão a entender que haverá emprego para todos. Andam a enganar quem?

Eles sabem melhor do que nós que os custos de produção têm muitíssimo a ver com os salários. Ao contrário das Carlas e dos Antónios deste país, presidentes e ministros sabem, ou adivinham, o que se passa nos conselhos de administração das multinacionais.

Porque aí, mais do que falar-se de produtividade ou de excelência, pergunta-se se um eslovaco não ganhará menos do que um português e um turco menos do que um eslovaco. Obtidas as respectivas respostas afirmativas, a decisão está tomada deslocalização para a Eslováquia e a Turquia.

A triste verdade é que, ganhando nós pouco, há quem ganhe ainda menos. Pelo que as empresas, que sabem que é o lucro e não o sonho que lhes governa a vida, só têm a dificuldade da escolha. Não faltam por esse Mundo fora Carlas e Antónios, com nomes diferentes, que, um dia, talvez saiam na primeira página dos jornais porque as "leis do mercado" nunca estão saciadas.

Haverá sempre, noutros locais, Carlas e Antónios ainda mais baratos.»

Sérgio de Andrade, Jornalista

http://jn.sapo.pt/2007/01/16/opiniao/carla_e_antonio.html

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